quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida"

"(...)Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

(...)Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania."

Caio F. Abreu

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

durma em paz

Se é real, não sei.
Pode estar em mim, pode não estar em lugar nenhum. Pode nem existir.
Preciso dizer a mim mesma que é.. e se não é, porque tanto me incomoda?
Fato que não sei, fato que nunca sei.
Enquanto mendigo sorrisos, o café me mantém acordada toda uma madrugada. Um livro, uma música. Um violão. Papel, caneta. Palavras. Lembranças.
O silêncio da cidade a dormir me traz calma, estou calma. Luzes apagadas por todos os lados, também apago a minha (ou já está apagada?); tudo foi embora neste momento, todos os pensamentos..

sábado, 11 de dezembro de 2010

Acorde-me

Depois de tanto movimento, o mundo pára.
Parece estranho no início...

Solidão grita meu nome aqui.
Um silêncio, uma calma tão desejada...
tão diferente, tão familiar, tão difícil.

Mais difícil ainda abrir os olhos pr'aquilo que eu não queria ver.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Agnóstico'

Fazer da solidão, companhia
E do tempo, alento
A angústia, consolo.

O fracasso,
Impulso.

Silêncio, dois segundos de fúria;
conformidade.

(postado originalmente no dia 27/03/10)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

contradição

Posso compreender, embora não saiba aceitar. Se tudo foge ao meu controle, se não cabe a mim decidir ou entender, se não é possível prever ou consertar um erro... Talvez eu não tenha mesmo que aceitar.
Mas, às vezes, penso que também não sou capaz de compreender. Reflito, tento enxergar em mim mesma um erro. Está em mim? Pensar demais sobre tais coisas leva minha auto-estima ao fundo do poço. Prefiro esquecer, apenas por um momento de tranquilidade.
Estou sóbria, olho ao redor e vejo que, pra todo desacerto, há um passo a ser dado em reparo. Mas não quero ser assim tão otimista - perdi meu talento. Fingir que está tudo bem ou tornar tudo ainda pior?

Só espero.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Broken

O que sinto é tão intenso que não sei nomear. Não sei tirar da cabeça, não sei ao menos como fazer isso. É tudo tão novo e, ao mesmo tempo, tão familiar, que é difícil não estranhar essa sensação gélida no estômago que sinto a cada vez que me lembro.

Ainda acho que tudo o que fiz foi errado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Never opened myself this way


Ultimamente meus textos têm se tornado menos indecifráveis. Acho que isso é bom, não sei. Não pelo sentido óbvio, mas pelo que representa - acho que amadureci meu modo de encarar as coisas, e consigo mostrar mais o que sinto.
Até quando isso é realmente bom, eu de fato não sei. O que sei é que nessa de mudar meu jeito de ver o que acontece comigo, entendi que sou feliz. Me sinto quase completa na maior parte das vezes, mas percebi que não sei ser feliz sozinha. Isso ainda dói, e ainda vai doer.
Falta um pedaço em mim, e eu sei como preenchê-lo.

domingo, 10 de outubro de 2010

Couldn't be much more from the heart


Algo que sempre temi é repetir um erro do passado. Ainda mais quando esse erro já foi repetido alguma outra vez na minha vida. Porém, apesar de todas as minhas tentativas de dizer pra mim mesma que esse incômodo que me invadiu nos últimos dias é só mais uma vez aquele triste engano de sempre, parece que agora querem me convencer de que o meu medo de errar é que está me enganando. Dessa vez é verdade. Será?
Mas e se acontecer tudo de novo? E se eu machucar alguém de novo pela minha incapacidade de saber o que se passa no meu coração? E se eu te machucar?
Às vezes acho que minha cabeça passa tempo demais pensando, por isso é que não consigo nem saber o que sinto de fato. Mas dessa vez tô disposta a arriscar. Eu quero arriscar.

Espero.

"All these words I don't just say, nothing else matters"

sábado, 9 de outubro de 2010

tocou pra mim no player


Lay beside me
Tell me what they've done
Speak the words I wanna hear
To make my demons run
The door is locked now
But it's opened if you're true
If you can understand the me
Then I can understand the you

Lay beside me
Under wicked skies
Black of day
Dark of night
We share this paralyze
The door cracks open
But there's no sun shining through
Black heart scarring darker still
But there's no sun shining through
No, there's no sun shining through
No, there's no sun shining...

What I've felt
What I've known
Turn the pages
Turn the stone
Behind the door
Should I open it for you?

Yeah!
What I've felt
What I've known
Sick and tired
I stand alone
Could you be there
'Cause I'm the one who waits for you
Or are you unforgiven too?

domingo, 12 de setembro de 2010

I'm on the right road now

Ah, como é bom olhar pra trás e ver que tudo valeu a pena. Sei que é clichê dizer isso, mas vencer pelo próprio esforço, por mais penoso que seja, é realmente a sensação mais gratificante que já senti. E vejo isso cada dia mais nitidamente.
Novos obstáculos surgem a todo momento, mas ser capaz de ir em frente ainda assim e enfrentar cara-a-cara as dificuldades e o medo é o que nos torna maduros o bastante pra merecê-los. Digo, mais uma vez citando um clichê, "não nos é dado mais do que podemos suportar": só passamos pelo que precisamos passar, por motivos que desconhecemos mas que, verdadeiramente, não importam tanto assim.
Outro dia uma amiga me disse "estamos exatamente onde queríamos, não onde sonhávamos"; isso me vem à cabeça todos os dias. A cada minuto penso em como mudamos nossos planos - algumas vezes somos forçados a isso - sem que percebamos realmente como acontece. Em um dia imaginamo-nos de um jeito, em outro a frente nos olhamos no espelho e vemos o quão distantes estamos dos nossos antigos sonhos. É estranho e dói um pouco. Mas, olhando com outros olhos, aqueles de alguém que quis muito chegar onde está, vejo que podia estar em outro lugar, em outro ritmo, fazendo tudo diferente, mas estou aqui. E acho, sinceramente, que dobrando as esquinas dessa coisa estranha que virou o destino, posso ser (e estou) feliz assim mesmo.

Não sei por que, mas de algum modo sinto que estou no caminho certo.
=)

sábado, 11 de setembro de 2010

why you had to hide away for so long?


Mr. Blue Sky

Sun is shinin' in the sky
There ain't
A cloud in sight
It's stopped rainin'
Ev'rybody's in a play
And don't you know
It's a beautiful new day
Hey, hey, hey

Runnin' down the avenue
See how the sun shines
Brightly in the city
On the streets
Where once was pity
Mister blue sky
Is living here today
Hey, hey, hey

Mister blue sky
Please tell us why
You had to hide away
For so long
Where did we go wrong? (2x)
Hey, you
With the pretty face
Welcome
To the human race
A celebration
Mister blue sky's up
There waitin'
And today is the day
We've waited for
Ho, ho, ho

Mister blue sky
Please tell us why
You had to hide away
For so long
Where did we go wrong?

Hey there mister blue
We're so pleased
To be with you
Look around
See what you do
Everybody
Smiles at you (2x)

Mister blue sky
Mister blue sky
Mister blue sky

Mister blue
You did it right
But soon comes
Mister night
Creepin' over
Now his hand
Is on your shoulder
Never mind
I'll remember you this
I'll remember you this

Mister blue sky
Please tell us why
You had to hide away
For so long
Where did we go wrong? (2x)

Hey there mister blue
We're so pleased
To be with you
Look around
See what you do
Ev'rybody smiles at you

terça-feira, 27 de julho de 2010

perdão.

Seus olhos entreabertos choravam de tanto combater o sono. Era já a terceira noite em que não conseguia tirar tudo o que vinha acontecendo nos últimos tempos da cabeça e descansar; como simplesmente fechar sua mente e esquecer tudo aquilo?
Todas as vezes em que havia tentado manter-se indiferente, silenciar quando algo gritava dentro dela, tudo o que havia mudado e agora estava igual novamente... visões e lembranças voltavam como flashes a todo o tempo.
Impossível apagar o que já foi, e impossível prometer que não ia acontecer tudo novamente. Tinha consciência de que estava sempre errava, culpava-se, mas não sabia ser diferente. Era o seu modo. Era ela.
Quando já não conseguia mais manter-se desperta, lutando contra todos aqueles pensamentos, uma desconsolada calma a invadia, inexplicada.

No outro dia, deixou apenas um bilhete:
"Vai ficar tudo bem. É sempre assim. Se não for aqui, agora, será lá, depois. Estou mesmo indo embora".

terça-feira, 20 de julho de 2010

ego-cêntrica

Encho-me de mim pra escrever estas linhas; porque eu sou feita de mim mesma. Sou inteira eu. Preciso-me e basto-me.
Às vezes também preciso de outrem, a personalidade humana me fascina - mas também me assusta. Dispo minha alma, abro aquele livrinho oculto para que alguém o leia. Ah, se soubessem o quão meu ego é disfarçadamente inflado a cada vez que tenho a chance de mostrá-lo, os que se importam ao menos um pouco comigo tentariam achegar-se a mim mais vezes.
Mas também não suporto que se aproximem demais. Se a proximidade chega a ser muito grande, preciso doar-me mais do que me é permitido. Sinto falta de mim. Deixo de ser inteira, vou sendo gradativamente decifrada. Meu íntimo incógnito começa a ser desvelado... quando vejo, onde estou?

Nostalgio minha introspecção, nostalgio minha solidão.
Sou melhor comigo.
Meu egoísmo se revela cada vez mais.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

"E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça"

Às vezes parece que tentar não é suficiente; desistir passa a ser, então, a melhor opção.
Às vezes, demonstrar o que sentimos nos torna fracos; basta então o silêncio.

O silêncio.
Aquele que nos torna invisíveis.
Ah, como eu queria!

Enquanto isso não é possível, no mínimo um abraço enquanto escorrem lágrimas quentes que desvelam meu maior íntimo.
Lágrimas que revelam meus medos infantis, minha incapacidade de ser plenamente,
mas escondem meu maior segredo.
Camuflam uma realidade deturpada por visões diferentes.

Almas diferentes. Corações diferentes.

domingo, 4 de julho de 2010

angústia

"Algo em mim dói, apenas dói
Não sei o quê, apenas sinto.
Tão infinito, flui, corrói
e lentamente mata, destrói
A sentinela em meu instinto.

É algo que dói assim somente
Não por doer ou existir...
Mas toda dor é ser ausente
Estar em todo o não presente
Jamais ficar, nunca partir.

Algo me dói, ai como cansa
A repetição desse doer...
E nenhum tino de eesperança
Faz essa dor tornar-se mansa
Para quem sabe me esquecer."

Marcus di Philip

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Musics that talk about me better than myself



Angel
- Sarah McLahclan

Spend all your time waiting
For that second chance
For a break that would make it okay
There's always some reason
To feel not good enough
And it's hard at the end of the day
I need some distraction
Oh beautiful release
Memories seep from my veins
Let me be empty
Oh and weightless and maybe
I'll find some peace tonight

In the arms of the angel
Fly away from here
From this dark cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage
Of your silent reverie
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here

So tired of the straight line
And everywhere you turn
There's vultures and thieves at your back
And the storm keeps on twisting
You keep on building the lies
That you make up for all that you lack
It don't make no difference
Escaping one last time
It's easier to believe in this sweet madness oh
This glorious sadness that brings me to my knees

In the arms of the angel
Fly away from here
From this dark cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage
Of your silent reverie
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Está em mim

Talvez quando acordarmos seja tarde, mas talvez seja uma nova oportunidade de refazer aquilo que já estava certo.
Um olhar em silêncio no vazio de todo o tempo perdido desperta um sentimento antes inexistente, desconhecido, porém agora tão intenso que quer gritar dentro de mim.

Peço licença para calá-lo.

domingo, 20 de junho de 2010

Mal do tempo


Há uns três anos, li um texto de Chaplin no perfil de uma amiga que dizia:

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida feliz está em percorrê-lo todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.
Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra a faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando...E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"

Mais do que nunca vejo algo de genial neste texto. Algumas vezes, envelhecer pode ser muito cruel. Como depois de uma vida inteira de luta com a família, de muito trabalho e responsabilidades, alguém que sempre havia sido sinônimo de segurança para as pessoas ao seu redor, alguém que sempre foi capaz de ajudar a qualquer um em qualquer situação pode simplesmente esquecer-se de como fazer as coisas mais simples, errar ou não se lembrar constantemente do nome dos próprios filhos, sentir-se deslocalizada dentro de sua própria casa? Isso pra não falar em coisas ainda mais estarrecedoras.
Como entender que possa ser necessário fazê-la reaprender a andar apoiando-se em braços de pessoas que um dia aprenderam a se equilibrar com ela? A inversão de papéis é tão evidentemente necessária, que dói. Ensinar a quem te ensinou: pode parecer um dever de gratidão absolutamente normal, mas isso só em teoria. Na verdade torna-se uma dor tão estranhamente latente, que é melhor ignorá-la e tentar 'se divertir' com a situação.
Acima de tudo, como aceitar tudo isso?
E como aceitar que, em meio a tantos avanços tecnológicos e médico-sanitários, tantas descobertas a todo tempo, não haja nenhuma terapia sequer capaz de conter ou diminuir o ritmo do avanço de tamanha crueldade? O cérebro é mesmo algo instigante, há um mistério ali gritando para ser desvendado sem haver quem tire conclusões certeiras. Pra mim, absolutamente obcecada por estudos científicos, pesquisas, soluções, medicamentos, cura, toda essa mágica que envolve a saúde, é inadmissível e ainda mais doloroso ver tal situação agravando-se sem que ninguém possa intervir de nenhuma maneira.
;/

Sim, acho que essa é a primeira vez desde a reinauguração do Blog que eu posto algo absolutamente pessoal sem ser metaforizado ou indiretamente dito.

domingo, 13 de junho de 2010

Descompasso

OIhou para o relógio. Ainda eram 3 da tarde e a ansiedade para a noite era grande demais. Quando já parecia haver passado uma eternidade, resolveu olhar novamente a hora: 3 horas e 8 minutos. "Meu Deus, esse ponteiro só pode estar estragado!" - disse enfurecido, verificando posteriormente que o outro relógio da casa marcava exatamente o mesmo horário. Ligou a televisão, nada o distraía. Folheou páginas e páginas do livro que havia começado a ler 3 meses antes. Folheou apenas, porque aquelas letras não diziam nada para ele, com a cabeça tão dispersa no momento. Aliás, dispersa não: concentrada no acontecimento que esperava.
O telefone tocou, "não, mamãe, não poderei jantar com a senhora hoje.. Tenho um compromisso às 9 da noite. Desculpa seu filho.. tá, tá, aham, também te amo mãe." Pensou então em sair para dar uma volta, quem sabe assim o tempo não passaria mais rápido. Caminhou pela rua, mas logo voltou à casa pensando: "agora sim, deve estar quase na hora!". 4 horas, 05 minutos. "NÃO É POSSÍVEL!"
Fazia frio. Sentou-se em sua cama e começou a observar um inseto que passeava pelo chão de seu quarto. O bichinho rodopiava sobre as patas e não conseguia sair do lugar. Achou graça. Logo o sono foi tomando o lugar da agonia, seus olhos foram ficando pesados, pesados... Não dormia há dias só pensando no que iria acontecer - nada podia dar errado!

Quando acordou estava escuro. Olhou para fora da janela, tantas estrelas só podiam dizer uma coisa: já era tarde! Não sabia onde havia deixado seu relógio, procurou-o apressado. 1 e meia da madrugada! "@$%@£#*!! que $%*#@&@ de tempo, porque passa assim tão rápido?!"

domingo, 6 de junho de 2010

Insetos interiores

(...)Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega se de "mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.

(...)
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se


A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.

Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.

Fernando Anitelli.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sóbrio

Quero voltar, mas não sei de onde vem o caminho!
aqueles toscos rastros que deixei já apagaram-se pela força do tempo..
Outrora sentia-me guiada pela menor brisa que tocasse meus cabelos, hoje um gélido vento não é capaz de mover nem mesmo um fio deles.

Cá estou eu, e espero.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

ELA, de novo.

"O Paradoxo do Entendimento

Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro - preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana."

Clarice Lispector

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Caminho

Há algo que ilumina o escuro do quarto?
Um clarão do lado contrário, na hora inexata...
Parecia sempre haver um novo agora, onde?

Rever, reler, alma indecifrada
Coração sincero, indeciso, repetido.
Tudo o que há já se foi,
tudo o que se foi virá e ver-se-á algum dia, quem sabe..

eu sei?

domingo, 23 de maio de 2010

Ilegível

Talvez por ser de poucas palavras, eu precise de tantas.
Talvez por precisar de tantas as minhas sejam, quase sempre, insuficientes.
Talvez por isso eu, raramente, desperte atenção.
Talvez por isso eu sempre esteja procurando em mim mesma uma razão para as coisas que acontecem.
Talvez justamente por isso é que eu nunca as entenda.

domingo, 16 de maio de 2010

Clarice Lispector escreveu só pra mim

"(...) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque eu sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva (...) Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza? (...) "

_em Perdoando Deus, Clarice Lispector.



Nem eu descreveria a mim mesma assim, tão exata..

quinta-feira, 13 de maio de 2010

"... agora, jogo algumas (fichas) no chão"

Perdoa minhas juras falsas, não as faço com tal intenção. Perdoa meus atos insanos, minha imensa incapacidade de ser quem eu gostaria. Perdoa.
Cada tentativa fracassada me torna ainda mais imagem x criatura. Sou o reflexo de um vampiro no espelho, ou a falta dele.

Perdão só adia um sofrimento ainda maior.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Invasão

Me perco nas palavras, não sei quais devo usar. Me vêm à cabeça e fogem de mim, gritam e me escapam. No entanto, se não as disser aqui, se não as escrever, sinto que meu coração irá explodir a cada momento.
Perdi todo meu lirismo, só o que me resta são minhas consoladoras palavras que preenchem, uma a uma, cada pedaço de um vazio. Perdi minhas rimas tolas, só o que ainda tenho é uma imensa necessidade de exprimir a complexidade de meus sentimentos. Perdi, talvez, uma sensibilidade que jamais tive; mas existe em mim um limite de emoções que contrasta com tudo o que, desde sempre, aparentei ser.
Perdoa minhas juras falsas, não as faço com tal intenção. Perdoa meus atos insanos, minha imensa incapacidade de ser quem eu gostaria. Perdoa.

Sou apenas alguém que é sem razão de ser.

sábado, 1 de maio de 2010

Destin(ando) - PARTE II

Vi a mim mesma naquelas duas meninas, e tal encontro me trouxe de volta algo que, há muito, já me fazia pensar bastante: a volatilidade de um momento. Há fases e fases na vida, e a grande maioria de nós - ou pelo menos, eu - sempre procura fazer planos friamente calculados para o futuro (e o que é o futuro senão algo que também, um dia, será hoje?), buscando não sei se um consolo para a ansiedade de se saber vivo no amanhã , talvez apenas seja da natureza humana. E, como tal, não saberíamos definir um porquê. Fato é que com o passar dos anos, verificamos que nossos sonhos nem sempre permanecem os mesmos, e, menos ainda, realizam-se. Algumas vezes somos obrigados a mudar o rumo de nossas vidas por um motivo que nem nos cabe contestar. Outras, nem sequer há um motivo concreto, e, no entanto, o tempo se encarrega de desencaminhar nossas rotas pré-traçadas.
Creio que momentos tragam consigo uma sensação de eternidade. Nosso eu é invadido por turbilhões de sentimentos, tão fortes e intensos que nos dão a impressão de que nunca irão acabar. No entanto, somos forçados a acreditar que, já dizia um velho por aí, nos acostumamos a tudo - é o que chamo de 'conformidade compulsória'.
O abraço dos dias que passam estanca todos os sofrimentos, e mostra-nos que o impossível é mera negação da desoladora efemeridade que bate à nossa porta constantemente.
..

"Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja."
(Clarice Lispector)

Destin(ando) - PARTE I

Andava outro dia pela rua, quando vi duas meninas vestidas de um antigo sonho meu. As duas tinham seus pés calejados em sandálias, um penteado típico no cabelo. Em suas bolsas, levavam consigo a causa do ferimento de seus pés. Ironicamente, a causa de sua dor é também a maior de suas alegrias - aquela sensação enebriante de esquecer-se, por um momento, de todos os problemas que nos cercam no dia-a-dia; desligar-se, ser você para você mesma, e ao mesmo tempo, não o ser; o delírio do enaltecimento, do esforço reconhecido. Um instante de agradecimento camuflado, a dança. A arte que pulsa em seu corpo de bailarino, diálogo entre o que me vê e o que eu me vejo. Conhecer-se acima de seus limites, superá-los a cada momento.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Calma

As palavras saltam dentro de mim, como se quisessem a todo o tempo que eu falasse, falasse. Peço que tenham calma. Não gosto de soltá-las de tal maneira. O dom do silêncio, às vezes, faz falta. Palavras merecem ser calmamente pensadas, organizadas e só então, ESCRITAS. É, eu prefiro assim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Superficial

A solidão pode acalentar,
a multidão, confundir.
O vazio pode inundar,
o consolo, lacrimejar.
A dor pode passar despercebida,
mas um sorriso sempre deve ser notado.

Um simples olhar pode ser suficiente para acalmar um coração que chora,
ainda que a consciência jamais seja recobrada.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

"Conversa de botas batidas"

- Alô?
- tum tum.... tum tum..
- Alô?
- ...
- Quem quer falar, por favor?
- a..m..
- Oi?
- a..m..o
- ...
- r...
- Quem??
- Você entendeu!
- Não, não entendi.
- Entendeu..
- Se entendi, há muito já me convenci de que você não existe. Não dessa forma!
- Existo. Estou a lhe falar no momento.
- Então por onde esteve todo esse tempo?
- Tô por aí..
- É, também tô por aqui. À propósito, não adianta, você não existe.

domingo, 18 de abril de 2010

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

Legítima pisciana que sou, nunca foi de meu costume uma visão pessimista das coisas. Sempre procurei enxergar 'uma luz no fim do túnel', qualquer fenda em que eu pudesse introduzir uma solução enérgica e fatal. Sempre deu certo.
A culpa é do tempo. O tempo que nos faz mais adultos e menos crianças, traz consigo responsabilidades e desilusões para nós, vítimas de sua crueldade. Assim, vamos aos poucos perdendo a dignidade e a humildade de acreditar que tudo acaba bem no final'. Tornamo-nos seres amargos, prevendo que talvez, quem sabe, daqui a um tempo nem tudo esteja assim tão certo como gostaríamos e/ou planejamos.
Agora já sabemos que nossos pais não são super-heróis, a vida não é sempre cor-de-rosa e o céu, muitas vezes, está longe de ser o limite - ele já se esgota muito antes. E é aí também que somos invadidos pela pior das sensações - a impotência.
Nada pior do que a sensação de ser impotente diante de algo. Talvez a impotência de estar diante de um bebê que chora sem que se compreenda o motivo, ou diante de uma dor que não possa ser estancada, de uma ferida que não cicatriza, de uma doença que não pode ser curada. A impotência nasce das diferenças, e da indiferença sobre as diferenças. É inadmissível ver que alguém simplesmente se faça omisso diante de uma situação que se apresenta a todos como já perdida. Mais inadmissível ainda saber que, acordado para o que acontece debaixo de seus olhos, alguém seja capaz de negar todas as soluções possíveis.
"Nada pode ser feito", "deixar como está", não são respostas satisfatórias. Queremos o melhor para aqueles que amamos, mas quando isso simplesmente foge de nosso alcance, chegamos ao nosso extremo. Um ar fresco para as idéias talvez recoloque nossa cabeça ao lugar. Ou talvez, seja apenas questão de tempo aceitarmos nossa incapacidade.

sábado, 17 de abril de 2010

Daquilo que é incerto

Talvez eu precise de um tempo pra mim mesma. Talvez eu precise de um tempo de mim mesma. Talvez alguém precise de um pouquinho do meu tempo.
Talvez aquela frase dita em outro contexto, por outra pessoa, não fizesse o menor sentido. Mas ali, naquele momento, fez surgir uma lágrima em meus olhos já tão acostumados a resistir a tal sentimento.


Talvez ninguém leia este blog. Mais ainda, talvez ninguém comente neste post. Talvez estes escritos não façam sentido algum.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Agora eu vejo você

Aquele olhar que, incostante, permanecia fixamente na minha direção, me dava às vezes a impressão de desconhecer-me. Parecia procurar em mim algum traço familiar, algo que pudesse identificar-me e a fizesse se sentir segura. Então, logo pede que eu me sente ao seu lado, e aí eu é que não sei mais se reconheço aquele sorriso irreal, tão marcado pelo tempo. É minha, mas até pouco tempo meu coração não a sabia como tal. E, depois de tanto tempo, pude vê-la realmente, não apenas olhá-la. Ver um sofrimento que, talvez, tenha sido apagado em suas feições, e que agora está ainda mais oculto em meio a tamanha desordem. É minha, mas só se descobre tais coisas quando já não é mais tão cedo.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O eu-lírico de mim mesma

Incompreensão absoluta do máximo abstrato de meu íntimo,
Interior incompleto incógnito.

Sorrisos.

terça-feira, 30 de março de 2010

18ª Balada

Minh'alma canta lá no fundo,
como quisesse dizer-me algo.
Baixinho...
Diz pra mim, alma minha,
que será de ti
se eu não mais puder ouvir-te?

sábado, 27 de março de 2010

Agnóstico'

Fazer da solidão, companhia
E do tempo, alento
A angústia, consolo.

O fracasso,
Impulso.

Silêncio, dois segundos de fúria;
conformidade.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Vertigem

Palavra!
me grita,
me grava,
me lava,
me dita .

Palavra!
me chama,
me fogo,
me fere,
me astuta.

Palavra, ai palavra,
me berra,
me invade,
me pede,
me foge!

me escapa,
........................


Ops, palavra!
me escreve
e descreve
me alma,
minh'alma.

E mente, desmente
(me) mente.

quinta-feira, 11 de março de 2010

nonsense insone

Ufa, em casa. Mas onde estão as chaves? sempre, é sempre a mesma coisa. As chaves se perdem na bolsa, as luzes do corredor do prédio já estão quase se apagando e eu ainda não encontrei a bendita coisa que abre a minha porta. Então, com um brilho repentino, lá no fundo, eis que a vejo. Graças a Deus! agora só preciso de um bom descanso! Mas onde está o meu quarto? onde estão todas as minhas coisas? pra onde foi tudo o que torna meu o lugar onde me encontro? Não mais que de repente, deixo de saber onde estou. Alguém em casa? Não sinto mais nada, não tenho voz, ninguém me ouve. Penso ter ouvido alguém gritar meu nome, porém não havia pessoa alguma.
Agora apenas sinto um vazio dentro de mim. Porquê? não consigo encontrar algo que me diga a resposta. Mas quem quer respostas?
Aliás, onde estive toda a tarde? meus olhos alcançam uma luz ao fim do corredor e vejo uma vela. Apenas uma chama ardendo e apagando-se pouco a pouco, vagamente dispersando-se, e mais, e mais. Agora é a escuridão.

quarta-feira, 10 de março de 2010

mais uma vez o tempo

Brinco que brinco de passar o tempo;
e brincando, o tempo passa de tal maneira que não podemos vê-lo enquanto voa.
Mas o sentimos.
E o peso desse tempo mata nossos contratempos.
E ali, escondidinho, ri-se ele de nós,

e brinca de l e n t o - d e v a g a r - ráaaaaaaaaaaapido,
l e n t o - d e v a g a r - ráaaaapido,
l e n t o - d e v a g a r - rápido.
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