domingo, 9 de janeiro de 2011

A verdade mais sincera

E eu que achava que nunca havia amado, nunca havia sentido amor. Me recusava a crer que ele fazia parte de mim. Até que um dia se descobre, no mais fundo da alma, aquele sentimento em sua forma mais pura e sincera que está lá, guardado, esperando a hora de explodir e gritar que quer ser expulso de onde está, que não aguenta mais ficar preso.
Não falo de amor carnal, não falo de paixão, tampouco de atração. Falo de um amor que é capaz de nos dar força naqueles momentos em que não havia mais de onde retirá-la; um amor que suporta as maiores dores, um amor que luta contra tudo o que foge ao seu controle, mas que, ao mesmo tempo, prefere sofrer a dor de perder a ver o outro chorando dores incuráveis.
Falo de um amor paciente e compreensivo, na sua forma genuína, quase infantil. Aquele que aprendemos desde cedo a nutrir e que cresce no dia-a-dia, mas que, com o tempo, aprendemos a ocultar dentro de nós.
Isso sim, é amor - preenchendo todo e qualquer vazio que possa existir, irradiando sua energia de otimismo e fé até o último instante. Nem a incerteza do amanhã pode abalar esse sentimento.
Vó.
Lennon & McCartney fizeram sua afirmação mais correta quando disseram a mais sábia frase já dita: "All you need is love, love is all you need".

sábado, 8 de janeiro de 2011

Não.

Sim, sou covarde. Posso ser a pior pessoa deste mundo, sem todos aqueles sentimentos que tinha antes dentro de mim. Posso estar sendo insensível e imatura. Mas, peço, não cobrem de mim mais do que posso oferecer. Não exijam mais responsabilidade do que cabe à mim naturalmente.

Simplesmente não posso.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Iminência

O dia amanheceu com um tom diferente: não era aquele seu modo convencional de despertar. Sentia-se estranha, algo invadia-lhe o mais fundo da alma. Não sabia bem o que era, mas parecia um mau presságio. Algo iria dar errado naquele dia. A todo momento, fechava seus olhos e enxergava cenas que não queria ver, não queria que fossem verdade.
Uma agonia profunda e não-revelada a deixava inquieta, tão inquieta que tentava desligar-se daquele mundo em que estava para adormecer seu medo. Inútil. Inútil mentir para o seu coração distante que a cada minuto se tornava mais enlouquecido pela impotência.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Abrupto

"Nada do que tinha era o que realmente queria", pensava ela enquanto observava a melancolia das gotas de chuva que caíam. Também não sabia o que de fato seu coração pedia naquele momento. O que a machucaria mais? ser assim distante ou ser próximo como fora outrora?
Suas feridas estavam por demais expostas para cicatrizar tão rapidamente. Não podiam exigir isso de alguém tão frágil como ela! Suas lágrimas pareciam cravadas em seu rosto, já encontravam lugar-comum em toda aquela desordem.

Então aquela luz acende-se: é preciso acordar para o novo dia.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Eu-não-eu

Então é isso. Luzes irradiando, dizendo que é chegado o fim. Ou o início, que seja. Pouco importa, também, a única coisa que sinto é uma gélida sensação de medo, medo do recomeço.
Esse temor traz ao meu rosto lágrimas que há algum tempo estão presas dentro de mim - tudo bem, nem tanto tempo assim. Medo de não ser tão bom como já foi, medo de que seja ainda melhor, medo do otimismo não valer, medo do pessimismo me invadir, medo de que nada mude. Provavelmente, a última opção. Na verdade, é sempre assim... sou tão aparentemente diferente, que minha imutabilidade me assusta. Sou tão instável emocionalmente, que minha incapacidade de sentir novas sensações e minha indiferença contradizem minha personalidade.
Estranho como dessa vez tudo soa além do normal, não pareço-me mais comigo. Ou talvez, só agora tenha descoberto que sou assim, na verdade.
Alteridade. Epifania.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida"

"(...)Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

(...)Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania."

Caio F. Abreu

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

durma em paz

Se é real, não sei.
Pode estar em mim, pode não estar em lugar nenhum. Pode nem existir.
Preciso dizer a mim mesma que é.. e se não é, porque tanto me incomoda?
Fato que não sei, fato que nunca sei.
Enquanto mendigo sorrisos, o café me mantém acordada toda uma madrugada. Um livro, uma música. Um violão. Papel, caneta. Palavras. Lembranças.
O silêncio da cidade a dormir me traz calma, estou calma. Luzes apagadas por todos os lados, também apago a minha (ou já está apagada?); tudo foi embora neste momento, todos os pensamentos..