sábado, 1 de maio de 2010

Destin(ando) - PARTE II

Vi a mim mesma naquelas duas meninas, e tal encontro me trouxe de volta algo que, há muito, já me fazia pensar bastante: a volatilidade de um momento. Há fases e fases na vida, e a grande maioria de nós - ou pelo menos, eu - sempre procura fazer planos friamente calculados para o futuro (e o que é o futuro senão algo que também, um dia, será hoje?), buscando não sei se um consolo para a ansiedade de se saber vivo no amanhã , talvez apenas seja da natureza humana. E, como tal, não saberíamos definir um porquê. Fato é que com o passar dos anos, verificamos que nossos sonhos nem sempre permanecem os mesmos, e, menos ainda, realizam-se. Algumas vezes somos obrigados a mudar o rumo de nossas vidas por um motivo que nem nos cabe contestar. Outras, nem sequer há um motivo concreto, e, no entanto, o tempo se encarrega de desencaminhar nossas rotas pré-traçadas.
Creio que momentos tragam consigo uma sensação de eternidade. Nosso eu é invadido por turbilhões de sentimentos, tão fortes e intensos que nos dão a impressão de que nunca irão acabar. No entanto, somos forçados a acreditar que, já dizia um velho por aí, nos acostumamos a tudo - é o que chamo de 'conformidade compulsória'.
O abraço dos dias que passam estanca todos os sofrimentos, e mostra-nos que o impossível é mera negação da desoladora efemeridade que bate à nossa porta constantemente.
..

"Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja."
(Clarice Lispector)

Destin(ando) - PARTE I

Andava outro dia pela rua, quando vi duas meninas vestidas de um antigo sonho meu. As duas tinham seus pés calejados em sandálias, um penteado típico no cabelo. Em suas bolsas, levavam consigo a causa do ferimento de seus pés. Ironicamente, a causa de sua dor é também a maior de suas alegrias - aquela sensação enebriante de esquecer-se, por um momento, de todos os problemas que nos cercam no dia-a-dia; desligar-se, ser você para você mesma, e ao mesmo tempo, não o ser; o delírio do enaltecimento, do esforço reconhecido. Um instante de agradecimento camuflado, a dança. A arte que pulsa em seu corpo de bailarino, diálogo entre o que me vê e o que eu me vejo. Conhecer-se acima de seus limites, superá-los a cada momento.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Calma

As palavras saltam dentro de mim, como se quisessem a todo o tempo que eu falasse, falasse. Peço que tenham calma. Não gosto de soltá-las de tal maneira. O dom do silêncio, às vezes, faz falta. Palavras merecem ser calmamente pensadas, organizadas e só então, ESCRITAS. É, eu prefiro assim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Superficial

A solidão pode acalentar,
a multidão, confundir.
O vazio pode inundar,
o consolo, lacrimejar.
A dor pode passar despercebida,
mas um sorriso sempre deve ser notado.

Um simples olhar pode ser suficiente para acalmar um coração que chora,
ainda que a consciência jamais seja recobrada.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

"Conversa de botas batidas"

- Alô?
- tum tum.... tum tum..
- Alô?
- ...
- Quem quer falar, por favor?
- a..m..
- Oi?
- a..m..o
- ...
- r...
- Quem??
- Você entendeu!
- Não, não entendi.
- Entendeu..
- Se entendi, há muito já me convenci de que você não existe. Não dessa forma!
- Existo. Estou a lhe falar no momento.
- Então por onde esteve todo esse tempo?
- Tô por aí..
- É, também tô por aqui. À propósito, não adianta, você não existe.

domingo, 18 de abril de 2010

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

Legítima pisciana que sou, nunca foi de meu costume uma visão pessimista das coisas. Sempre procurei enxergar 'uma luz no fim do túnel', qualquer fenda em que eu pudesse introduzir uma solução enérgica e fatal. Sempre deu certo.
A culpa é do tempo. O tempo que nos faz mais adultos e menos crianças, traz consigo responsabilidades e desilusões para nós, vítimas de sua crueldade. Assim, vamos aos poucos perdendo a dignidade e a humildade de acreditar que tudo acaba bem no final'. Tornamo-nos seres amargos, prevendo que talvez, quem sabe, daqui a um tempo nem tudo esteja assim tão certo como gostaríamos e/ou planejamos.
Agora já sabemos que nossos pais não são super-heróis, a vida não é sempre cor-de-rosa e o céu, muitas vezes, está longe de ser o limite - ele já se esgota muito antes. E é aí também que somos invadidos pela pior das sensações - a impotência.
Nada pior do que a sensação de ser impotente diante de algo. Talvez a impotência de estar diante de um bebê que chora sem que se compreenda o motivo, ou diante de uma dor que não possa ser estancada, de uma ferida que não cicatriza, de uma doença que não pode ser curada. A impotência nasce das diferenças, e da indiferença sobre as diferenças. É inadmissível ver que alguém simplesmente se faça omisso diante de uma situação que se apresenta a todos como já perdida. Mais inadmissível ainda saber que, acordado para o que acontece debaixo de seus olhos, alguém seja capaz de negar todas as soluções possíveis.
"Nada pode ser feito", "deixar como está", não são respostas satisfatórias. Queremos o melhor para aqueles que amamos, mas quando isso simplesmente foge de nosso alcance, chegamos ao nosso extremo. Um ar fresco para as idéias talvez recoloque nossa cabeça ao lugar. Ou talvez, seja apenas questão de tempo aceitarmos nossa incapacidade.

sábado, 17 de abril de 2010

Daquilo que é incerto

Talvez eu precise de um tempo pra mim mesma. Talvez eu precise de um tempo de mim mesma. Talvez alguém precise de um pouquinho do meu tempo.
Talvez aquela frase dita em outro contexto, por outra pessoa, não fizesse o menor sentido. Mas ali, naquele momento, fez surgir uma lágrima em meus olhos já tão acostumados a resistir a tal sentimento.


Talvez ninguém leia este blog. Mais ainda, talvez ninguém comente neste post. Talvez estes escritos não façam sentido algum.